Bem, esquentando a discussão sobre o Orkut, achei um texto interessante sobre ele…
“Há quem diga que ele não passa de mais uma conseqüência inútil da vida on-line. Há quem o considere uma panelinha virtual. Há ainda alguns tais capazes de desembolsar bons tostões para fazer parte dele – mesmo esbravejando contra seu suposto proselitismo. Seus detratores o acusam de ser um clube prive, posto que só tem acesso ao sistema quem for convidado por alguém que já seja membro do mesmo. Por outro lado, há também quem o considere o espaço digital mais promissor criado nos últimos anos, misto de vitrine pessoal e referência cultural. Para o bem ou para o mal, ele é o Orkut, site criado pela equipe Google que, em pouco mais de cinco meses, tornou-se fenômeno entre internautas de todo mundo, especialmente entre os brasileiros.
Numa rápida passada de olhos, pode mesmo parecer incongruente conectar pessoas através de um mecanismo que exige a apresentação de convite prévio. Se fosse realmente democrático, a necessidade de contato antecipado seria dispensada, diriam os mais conservadores. Isso, em parte, é verdade. No entanto, é ingenuidade crer que o Orkut é um universo sectário. Basta ter um amiguinho, coleguinha, breve conhecido, cunhado gente fina, primo distante que se preste a perder 1,5 minuto de seu tempo para enviar-lhe o convite. Depois disso, quem manda é você. Assim na rede como na vida, dependemos sim do outro para confirmar nossa existência – real ou virtual. Isso é regra do jogo. Take it or leave it. O site é inspirado na teoria dos seis graus de separação, que sustenta que todas as pessoas do mundo estão conectadas entre si através de, no máximo, seis outras pessoas. Seguindo este princípio, o Orkut está conceitualmente voltado à máxima integração dos sujeitos. Ora viajantes perdidos no mar renovável da Internet, eles agora podem não apenas exibir seus rostinhos bonitos em suas páginas pessoais alojadas no sistema, como também trocar figurinhas de toda ordem através das comunidades virtuais lá alocadas. Se a febre dos chats, fóruns e grupos de discussão parecem fazer parte da infância da Internet, pode-se dizer que, hoje, o Orkut é sinal de sua adolescência.

Uma vez dentro do Orkut, o usuário ganha uma página individual onde insere dados pessoais, fotos, gostos e interesses. Interesses que, aliás, podem ser compartilhados através das inúmeras comunidades que integram o sistema. Criados livres e indiscriminadamente pelos próprios usuários, tais grupamentos se prestam a toda sorte de debate.

A comunidade Crivella não, por exemplo, faz campanha contra a candidatura do pastor Marcelo Crivella à prefeitura do Rio de Janeiro, enquanto a comunidade Como Miojo sim, e daí? promove conversas sobre as maravilhas do macarrão instantâneo. Enquanto os participantes do grupo Cybercult discutem a sociedade em rede, a cultura cibernética e as organizações virtuais, o pessoal que integra a Eu odeio segunda-feira vocifera contra o primeiro dia útil da semana. A turminha avessa aos abusos da vida pública pode se encontrar na página Vereador salário zero, “comunidade para todos aqueles que acham que vereador no Brasil não serve para nada, e que são a favor de que estes políticos não recebam salários”.

Os profissionais da comunicação podem trocar experiências, contatos, sugestões de pauta e jobs em grupos como Jornalistas e Assessores, Freelas, Diretores de Arte ou Criação-Criativos. Os fãs da sétima arte se fartam em comunidades como a Cinéfilos, Cinema brasileiro, Cinema em cena, além de páginas especialmente dedicadas a diretores e cineastas de todo tipo. De Kubrick a Jorge Furtado, estão todos lá. Para papos cabeças, recomendo Psicologia na virtualidade, comunidade voltada para conversas sobre Psicologia, Internet, aspectos do virtual e psicologia na informática. Mas, se você prefere mandar às favas essa onda intelectual que circula no Orkut, experimente a Compulsive Buraco Players que, como o próprio nome indica, destina-se a quem a expressão “pegar o morto de pé” não traz nenhuma estranheza de natureza necrofílica.

Assim, na rede como na vida, há também quem desenvolva um gosto pelo mórbido, proibido, imoral ou antiético das convivências. O Orkut está cheio de skin heads, comunidades nazistas e grupos que disseminam, agora sim, o sectarismo e a intolerância. No último mês, muito se falou sobre a suposta reação norte-americana à integração massiva de brasileiros no sistema. Brazilian haters e seus pares esbravejaram contra o até então 3º lugar de participação ocupado por internautas brasileiros no sistema. Muitos nativos da terra do tio Sam pregavam por todos os lados um sonoro “fora, brasileiros” em suas páginas.

Vale ressaltar que todas as comunidades podem ser denunciadas ao administrador geral do Orkut (no caso, o Google) quando identificadas como sendo de caráter preconceituoso. Para tanto, basta clicar na opção “report as bogus” e enviar mensagem acusando a disseminação de conteúdos nefastos na rede.

Se há elitismos e narizes torcidos no Orkut, é pelo simples fato de que, por trás das malhas virtuais, há pessoas de carne e osso. O sociólogo espanhol Manuel Castells é, sem dúvida, o intelectual que tem estudado o impacto da sociedade da informação com maior extensão, profundidade e perspicácia. Sobre o assunto, o autor escreveu que “a Internet é um instrumento que desenvolve, mas que não muda os comportamentos; ao contrário, os comportamentos apropriam-se da Internet, amplificam-se e potencializam-se a partir do que são. Não é a Internet que muda os comportamentos, mas os comportamentos que mudam a Internet”.

Como a qualquer ferramenta, cabe ao usuário atribuir significado ao Orkut. O bom uso deste sistema depende, acima de tudo, do bom senso e da boa vontade de querer integrar-se positivamente aos demais “amigos orkut”. O que está em jogo não é simplesmente colecionar pessoas que, tal como num álbum de figurinhas, ficam “coladas” em sua página pessoal. Mais que isso, é a possibilidade de integração aos mais ecléticos debates e o sentido da redescoberta de amigos há muito perdidos pela vida que tornam este espaço um local promissor. Isso porque, assim na rede como na vida, são as pessoas que fazem toda a diferença.

*Vany Paiva é Jornalista, mestranda na área de Novas Tecnologias e Cultura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, professora e orkuteira seduzida pelas potencialidades da rede.”
Fonte:Agência Carta Maior

Só para acrescentar: concordo que pode ter o lado bom de reencontrar amigos há muito perdidos… só tem uma coisa que me irrita: para tudo vc tem que entrar na página do orkut. Você recebe um email (já até bloqueei esses emails inúteis) dizendo: “você recebeu uma mensagem de fulano, vá à página do orkut e blablabla” ou “fulano escreveu um testemunho sobre você, vá até a página para lê-lo e aceitá-lo”, e assim por diante.

Creio que quem não tem tempo para se conectar a net e se dedicar a isso, não sei se funciona muito bem. O tempo eu até tenho, mas meu problema é outro…. meu namorado tem ciúmes do meu computador! Mas isso é papo para outro post…

Beijocas